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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O menino que comia lagartos

Tikorô gostava de atirar pedrinhas com seu estilingue apontado para lagartos… Até que encontra um enorme lagarto branco aos prantos. Era branco porque suas cores haviam sumido junto com as lembranças… da mesma forma como aconteceu com os africanos. Juntos, eles são guiados pelos símbolos e tradições culturais do povo, num caminho contra o esquecimento…
A ilustração do livro é linda.


Minha avó, sua avó


Um livro para as vovós e seus netinhos compartilharem. A autora conta a história de vida de sua avó, que veio da antiga união soviética para o Brasil quando tinha apenas 10 de idade. O livro traz umas ilustrações com montagens de fotografias (semelhante à estética dos desenhos de maiakovski) e serve como uma espécie de álbum de memória porque incentiva a criança a registrar suas lembranças, desenhos e brincadeiras…

terça-feira, 2 de julho de 2013

Infantis recém chegados à livraria, editora SM

A editora SM lançou grandes livros (livros grandes) em textos adaptados. Ainda não os li, mas me impressionou muito a proposta de lançar Gargântua. Estou realmente curiosa... Até porque eu sinceramente não conhecia a história até pouco tempo, e quando tive contato me pareceu algo que jamais seria relacionado ao mundo infantil, porque o original tem conteúdo considerado obsceno, impróprio e por aí vai. É a típica história censurada ou que gera polêmica. 
Conheci através de um livro do Bakhtin "A cultura popular da Idade Média", livro relacionado a estudos sobre cultura cômica popular. Nele, eram descritas cenas de vocabulário bem grosseiro, escatológico, abjeto. Logo, meus olhinhos brilharam. Acho o Bakhtin um chato, mas não da pra negar que ele saca umas coisas bem interessantes. Enfim, publicaram para crianças literatura de realismo grotesco. PRECISO LER ISSO.


Outra feliz novidade é "A máquina do poeta", uma confidência do Drummond para o Mário de Andrade a respeito da sua crise com a escrita... O poeta confessando acreditar que não nascera para escrever.
O ilustrador Nelson Cruz consegue trabalhar com esse questionamento sempre inerente ao poeta Drummond, com ilustrações sombrias, soturnas, que revelam tristeza e o desconforto emocional. Uma bela homenagem às correspondências que Drummond trocava com Mário. 




Lembrou-me logo o poema que se inicia assim: "Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro, inquieto, vivo."
Acho que as imagens do Nelson Cruz conseguem retratar bem isso, essa crise e agonia poética, que se torna motivo de vários poemas do Drummond. São imagens que também são poesia, e que inundam uma vida inteira.

domingo, 16 de junho de 2013

15° salão FNLIJ

Acabou  hoje. As fotos são do único dia em que estive presente, no quarto dia de seminário. O tema era "a arte de ilustrar para crianças no Brasil e no mundo".


Eu adoro essa reflexão sobre ilustração, ainda mais quando estiveram presentes nomes importantes como Nelson Cruz, Rui de Oliveira, Ciça Fittipaldi, Odiolon Moraes (!!!), Roger Mello e também os colombianos Ivar da Coll, Rafael Yockteng, Dipacho, Olga Cuéllar e Claudia Rueda, etc etc etc. Saldo bem positivo. Os debates foram interessantes, não foram profundos em complexidade, mas profundos pela amplitude e relevância dada a questão da ilustração dos livros, verdadeiras obras de arte.




Em relação aos estandes: muito amor para a CosacNaify, que estava com 40% de desconto em todos os livros.


Cada participante ganhou um livro.  Recebi o exemplar de Grande Sertão Veredas, da ed. Nova Fronteira, coleção Biblioteca do Estudante!


Lista com os vencedores deste ano (produção de 2012), aqui !

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um porco vem morar aqui!


Adoro porcos. Quem me conhece sabe. Quando vi esse livro, explodi de curiosidade.
Depois que li, achei super fofo. Todo mundo tem preconceito contra os porcos, sempre acusados de serem sujinhos, nojentinhos, bagunceiros e lamentos (cheios de lama, rs).
Esse porquinho prova o contrário, prova que as expectativas dos outros podem estar erradas. E que nem tudo que parece é.
Não é um texto pedagogizante. É como uma fábula que trata de um assunto moral, mas sem aquela dicção "faça isso" ou "não faça isso". Toda conclusão vem da leitura mesmo. Que pode ser apenas uma história... ou pode ser também uma reflexão... 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Arte: livros-objetos e livros-imagem

Acho que é de conhecimento de todos que o mercado editorial está direcionado a divertir as crianças com livros-objetos... barulhentos, coloridos, permeáveis, desmontáveis... um monte de treco! sim, livros-trecos que depois de uma semana se entulham, quebram... e histórias pouco contam.

Mas eis que, por outro lado, os livros infantis tem maior pré-disposição a se tornarem objetos de arte. É inegável!  O mundo da literatura para crianças também comprova que nem tudo na vida, relacionado ao prazer, deve estar atrelado à diversão...

Imagens saltam das páginas em delicadas dobraduras de papel, com sofisticada "tecnologia" 3d. Saindo da linha livro-brinquedo, as dimensões em papel fazem parte do mundo da literatura infantil com ilustrações originais e extremamente belas, com imagens móveis surgidas literalmente das páginas de um livro.

É o exemplo da adaptação em quadrinhos em versão pop up de Moby Dick, publicada pela Publifolha. Sem questionar o valor literário da edição, podemos dizer que este livro é sim um objeto de arte.


Outros exemplos também encontramos em livros que nos permitem manipular a história, fazendo-nos intergir com as mãos, como nos livros de Janet e Allan Ahlberg, lançados pela Cia das Letrinhas, "O Carteiro Chegou" e "O Natal do Carteiro". Encontrei na internet um blog (veja aqui) com um relato bem legal sobre a experiência de leitura desse último livro. Tirei de lá essas imagens:

 

E não é apenas a experiência manual de leitura que identifica a verdadeira preocupação com a estética do livro-objeto. O design gráfico dos livros, o tipo de papel, a costura, tudo tende a ser mais elegante nas melhores edições de livros infantis... Casos em que a história é pouco interessante perto das ilustrações. Ilustrações que, se por um lado limitam o exercício da imaginação, por outro são um aprazível encanto visual de cores e traçados, verdadeiros "quadros" e pinturas de arte, dignos de serem emoldurados...

Minha última descoberta, quero dizer "a preferida", foi a ilustradora Suzy Lee (veja a trilogia sem palavras: "Onda", "Espelho", "Sombra" aqui)... uma sul-coreana cujos desenhos são fascinantes e constroem uma narrativa poética que nos permite experimentar o livro como imagem, puramente... num lirismo que (con)figura a simplicidade e a riqueza num jogo de cores e sentidos, num contraponto entre as páginas da esquerda e da direita e também entre nós leitores (leitores?) e a menina-personagem que nos encanta.
É apaixonante!

sábado, 28 de maio de 2011

Quem conta um conto aumenta um ponto

No período da Idade Média a palavra conto estava relacionada ao contar uma história, ou seja, um conto nada mais era do que um relato de acontecimentos. A tradição de narrar histórias, histórias que passaram de pessoa para pessoa, tornou-se importante pela sua dimensão utilitária e o ensinamento moral que muitas vezes a elas era atribuído. Nesse sentido, em sua origem, o conto traz semelhanças próprias ao que hoje conhecemos por fábula.

Os clássicos “contos de fadas” (ou “contos da carochinha”) são compilações de registros de narrativas orais, tradicionais entre os século XVI e XVIII, que com o passar dos tempos integraram em sua essência uma espécie de “moral” tal como a que se lê na versão de Chapeuzinho Vermelho do francês Charles Perrault:

Vemos aqui que as meninas, E sobretudo as mocinhas Lindas, elegantes e finas, Não devem a qualquer um escutar.E se o fazem, não é surpresa Que do lobo virem o jantar. Falo "do" lobo, pois nem todos eles São de fato equiparáveis. Alguns são até muito amáveis, Serenos, sem fel nem irritação. Esses doces lobos, com toda educação, Acompanham as jovens senhoritas Pelos becos afora e além do portão. Mas ai! Esses lobos gentis e prestimosos, São, entre todos, os mais perigosos.
Em sua origem, esses tipos de contos narravam acontecimentos hediondos, cenas de estupro e assassinatos,  semelhante à versão dos irmãos Grimm (ler aqui).

As versões de Chico Buarque (ler aqui) e Guimarães Rosa (ler aqui) nos remetem a essa já conhecida historia. Desde a leitura do subtítulo do conto de Guimarães, o leitor se encontra na posição de não apenas ler uma nova historia, mas de reler outra a qual esta se assemelha. Por isso “nova velha história”, uma  versão nova de algo que já conhecemos.

Trata-se, então, de um pacto de reconhecimento. A leitura se desenvolve com base na identificação de elementos presentes na estrutura narrativa, elementos que não são necessariamente idênticos, mas que exercem a mesma função. Por exemplo, a existência de personagens-chaves que desencadeiam as principais ações do enredo (como a mãe que pede à filha para levar doces a avó), ou a presença de um elemento símbolo que dá nome à personagem principal, “fita verde” e “chapeuzinho amarelo”. Sabemos que são  versões porque todas apresentam a mesma perspectiva dramática, com o mesmo conflito: a menina deve escolher entre dois caminhos e evitar encontrar o lobo. Entretanto, não se lê a mesma história, porque cada uma renova, a seu modo, a estrutura narrativa, possibilitando, inclusive, finais diferentes.

A diferença não se baseia apenas na alteração no enredo, mas também no plano da linguagem que cada autor expressa, como quando Guimarães faz uso da repetição de fonemas (aliteração) quando escreve “havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam”, ou quando Chico Buarque trabalha a ordem do discurso numa transformação do plano simbólico do nomear, em que a relação entre a linguagem e o acontecimento são análogas e metaforizadas no enredo: “LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO" (lobo - bolo).

Nesse sentido, a literatura pode estar vinculada a uma concepção voltada à construção intertextual, em que as narrativas são eventos lingüísticos e literários cujo significado só existe em relação a textos já existentes.

Chapeuzinho Vermelho

(publicação relativa ao texto quem conta um conto aumenta um ponto)


Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.
- Para a casa de vovó - ela respondeu.
- Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
- O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.
Pam, pam.
- Entre, querida.
- Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
- Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne o vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: "menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!"
Então, o lobo disse:
- Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
- Onde ponho meu avental?
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa - corpete, saia, anágua e meias a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
- Ah, vovó! Como você é peluda!
- É para me manter mais aquecida, querida.
- Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
- É para carregar melhor a lenha, querida.
- Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
- É para me coçar melhor, querida.
-Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
-É para comer melhor você, querida.
E ele a devorou.

Fita Verde no Cabelo – nova velha estória, de João Guimarães Rosa

(publicação relativa ao texto quem conta um conto aumenta um ponto)

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.
Fita - Verde  partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar fambroesas.
Daí, que, indo no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido, nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.
Então ela, mesma, era quem dizia:
- Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.
A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto passa por elas passa.
 Vinha sobejadamente.
 Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
 - Quem é?
- Sou eu.. - e Fita Verde descansou a voz. - Sou sua linda netinha, com cesto e com pote, com a Fita Verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó difícil, disse: - Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus a abençoe.
Fita Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar apagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: - Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita Vede se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço.
Ela perguntou:
- Vovozinha, que braços tão magros, os  seus, e que mãos tão trementes!
- É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta... - a avó murmurou.
- Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados.
 -É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta... - a avó suspirou.
- Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
- É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha... - a avó ainda gemeu.
Fita Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou:
 - Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!...
Mas a avó não estava  mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.