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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Cordilheira

O romance faz parte da coleção da "Amores Expressos" da Companhia das Letras, comprometida em publicar livros cujas narrativas são escritas após os autores viajarem à determinada cidade em busca de inspiração e de elementos para desenvolver uma trama amorosa.

No caso de Daniel Galera, a história acontece numa viagem à Buenos Aires. A personagem principal é uma escritora, Anita, que vai até a cidade argentina para o lançamento da tradução do seu livro. Sem maiores pretensões literárias, Anita acaba se deixando levar pelo seu novo projeto de vida. O desejo de ser mãe, e a negação de uma possível paternidade, motivou o término de seu relacionamento com Danilo. Anita, em sua complexidade e inquietudes, decide se afastar e vivenciar a cidade de Buenos Aires. 

No evento sobre seu livro ela conhece um argentino misterioso, Holden, declaradamente seu fã. Interessante e muito misterioso, ele à apresenta para um espécie de confraria da qual fazem parte seus amigos também escritores. E cada um tem uma relação muito estreita com a literatura, e com seu próprio livro.

Anita se dedica ao seu novo relacionamento, mas não se entrega completamente às crenças e ideologias que Holden e os outros integrantes do grupo compartilham.

A história é bem improvável, mas a escrita é tão bem estruturada, e a personagem é tão real, que somo convencidos desse mundo literário impreciso e complexo. 

O ponto de vista da narradora desperta várias reflexões sobre literatura, ficção e a relação de escritores com a sua própria obra. Por esses motivos, decidi destacar esse trecho, em que a Anita faz uma reflexão a respeito de sua amiga, Alexandra, e essas questões sobre invenção e narrativa.


Se Alexandra queria encontrar um propósito benigno numa infelicidade, cedo ou tarde ela o encontraria. Sua mente ergueria a ponte necessária para que sua explicação de mundo se justificasse. Ela aguardaria com paciência o episódio venturoso que poderia ser interpretado como resultado de um revés anterior. A vida lhe ofereceria um, com certeza, ficando mais uma vez provado que o sofrimento é apenas prelúdio para a felicidade - uma perspectiva que, no caso dela, provou ser insustentável. Mas às vezes um revés é apenas um revés. É comum ficarmos sem compensação nenhuma para um desastre, uma agressão, um erro, uma doença, o fim de um amor, a perda de uma pessoa amada. É uma questão de perspectiva, ou de fé. Nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo. Fazemos o que podemos. O legado de todos que nos precederam nesse esforço pode ajudar ou confundir, e em última instância ninguém nunca prova nada. Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. Dar sentido ao mundo é um ato criativo. Uma visão de mundo é uma narrativa.
pg. 74

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

1000 quadros, narrativa coletiva

Rafael Sica 'tá com um novo projeto, junto com Rafael Coutinho. Foram 24h construindo uma narrativa em quadrinhos, 1000 quadrinhos!
A história não tem linearidade. A proposta é justamente essa. Cada quadro está à venda por r$10 no site da Narval e, conforme as compras, os quadros são divulgados e é então que se define a ordem da narrativa.
Bem legal, né?


{ Como 'tá ficando essa história coletiva?}

Para conhecer mais sobre o trabalho do Rafael Sica, sugiro uma fuçada no blog dele. Foi daí que ele publicou o livro "Ordinário", depois de lançar os quadrinhos na internet. { http://rafaelsica.zip.net/ }
Ele tem um livro novo, "Tobogã", recém lançado e por mim ainda não lido.
Gosto bastante dos desenhos dele: meio nonsense, tem uma atmosfera sobre o fantástico e com um lado poético voltado paro o urbano... além disso, ele não trabalha com texto verbal.

Já o Rafael Coutinho é filho do Laerte e co-autor de "Cachalote", livro assinado também pelo Daniel Galera.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Lançamentos do 2º semestre e breves comentários de leituras

Procurei no histórico, mas tem tanta, taaaaaaanta página, que foi impossível reencontrar o site ou o vídeo em que obtive as seguintes notícias que me interessam sobre lançamentos para o 2º semestre de 2013:
  • em setembro será lançada pela CosacNaify a Antologia de Literatura Fantástica, de Jorge Luis Borges,  Adolfo Bioy Casares e também de Silvina Ocampo. Até então só teríamos acesso a edições em espanhol. Espero que a editora capriche e faça aquela promoção de 50%, hahaha!
  • Bernardo Carvalho lançará um livro mais chocante que Nove Noites. O que será que vem por aí?

Além desses dois, outros lançamentos estão previstos e me deixaram empolgada. Por enquanto cito os livros da Cia das Letras (ver mais aqui):
  • Uma vida em cartas, George Orwell
  • Dever, Armando Freitas Filho
  • Coletânea de prosa de Elizabeth Bishop
  • Dois irmãos, adaptação em quadrinhos por Gabriel Bá e Fábio Moon { estou extremamente curiosa, e consta como "sem data".  Provavelmente restará para 2014 }

Fora esses lembretes sobre livros futuros, tem uma pequena e nobre pilha que aguarda espaço (de tempo) para ser resenhada no blog, ou comentada. Além dos rascunhos que estou relendo e reescrevendo para finalmente publicar por aqui... 

Ah! Chegaram os livros que comprei na promô da Cosac. Nessa comprinha, adquiri mais um da gaúcha Veronica Stigger, o Grand Cabaret Demenzial. Edição bem bacana e instigante. Pela folheada, acho que ela aprimora o humor e a diagramação do livro corresponde. 

Também chegou aquele livro que estava na lista de desejos: Celular - 13 histórias à maneira antiga. Já li os primeiros contos e gostei. O Ingo Schulze parece trazer para a atualidade literária essa necessidade de um efeito moral ao final da narrativa, mas é engraçado isso no texto dele, porque a reflexão surge de uma história que parece sem porquês. "À maneira antiga" me sugere bem esse aspecto, um resgate da áurea desse poder significativo e mágico de narrar, a partir de um olhar sobre as experiências tidas como sem importância... 

E sobre o empréstimo do livro do Borges, ele está por aqui... mas como todo texto borgeano, este também merece pesquisa... então não pode ser leitura de ônibus... viva o Google!:

Abtu e Anet
Vijay Stambha
Torre de la Victoria, Chittorgarh Fort, India

domingo, 28 de julho de 2013

RJ 2013 me remete a um livro do Orwell

Os últimos grandes acontecimentos da cidade me remetem ao livro "Revolução dos Bichos". Tanto a narrativa literária, quanto os fatos demonstram o quanto o povo não pensa por si mesmo. 

Resumo da história de Orwell:

Em uma fazenda da Inglaterra (Granja Solar), os animais trabalham exaustivamente e por não se sentirem recompensados, sonham com uma grande revolução que defenda a auto-governabilidade e a igualdade entre os animais. Quando o dono da fazenda se descuida da alimentação dos bichos, os animais se libertam e se apropriam da fazenda, instaurando uma nova ordem que preza pelo sistema cooperativista. A sonhada revolução acontece... e várias "regrinhas" são criadas, como por exemplo: qualquer coisa que ande sobre duas perna é inimigo e qualquer coisa que ande sobre quatro pernas (ou tenha asa) é amigo... Mas as consequências dessa nova ordem não são como foram idealizadas...

Há três suínos importantes nessa história:
Major é o porco mais velho, responsável por reunir os animais todos e incitar os princípios originais da revolução. 
Bola-de-Neve é aquele que tem a ideia de construir um moinho de vento, visando a prosperidade da Granja Solar e a melhoria da qualidade de vida de todos os bichos,  mas que, no entanto, desaparece durante a narrativa.
O terceiro é Napoleão, eleito líder dos animais, sendo o porco que se apropria da ideia do moinho de vento e traz informações acusatórias e críticas contra a imaginação e o idealismo de Bola-de-Neve.
Na história de Orwell os porcos são considerados os animais mais inteligentes e passam a usufruir de alguns privilégios que acabam desestruturando o regime de igualdade proposto inicialmente. É a partir de então que uma nova forma de opressão ocorre na Granja Solar, e a estratificação social entre os bichos se instala: alguns dos animais que eram oprimidos tornam-se os opressores da vez.


 {Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros}. 

Ok. Mas e aí, Mariana? O que isso tem a ver com o Rio 2013?
Ora, se pela alegoria tu ainda não entendestes, eu te digo mais algumas coisinhas:
Primeiro, o livro foi escrito em 1945 e é uma sátira à ditadura stalinista, como uma espécie de retrato análogo e nada sutil das situações que ocorriam na União Soviética, tais como: assassinatos sem explicação, exílios e a distorção da memória histórica... Dessa forma, Stálin = porco Napoleão e Trotski = porco Bola-de-Neve.
Eu mesma não entendo muito de história geral e tive que pesquisar a respeito quando li o livro há muito tempo atrás, mas abre parênteses: não são necessários esses dados históricos para entender a narrativa, tá?, fecha parênteses. 

Segunda informação: o livro segue como uma eterna releitura do mundo, pois essa narrativa sempre se demonstra atual e pode ser compreendida em qualquer sociedade como uma produção metafórica e crítica a respeito dos mecanismos de poder que, de alguma forma, trazem a tirania e a dissipação dos ideais de igualdade.

Logo,
o que ocorre no Rio de Janeiro (e nos demais estados brasileiros também) é uma sede de revolução daqueles que estão cansados da exploração. Essa sede reforça a visão pessimista sobre a política atual (ou politicagem - para soar mais negativamente). Os cidadãos estão exaustos dessa submissão a um poder que não nos representa (governo, prefeitura, presidência e por aí vai...) Alguns de nós, os políticos, tomam posse de cargos em nosso nome, mas ao se apropriarem desse poder adquirem mais privilégios e se toram "mais iguais" que nós, os outros. E aí transforam, a sua maneira, as "regrinhas" estabelecidas, fazendo acordos com empresários e instaurando modificações na sociedade de maneira arbitrária em defesa de interesses próprios.

Quase na mesma medida e a respeito da manifestação contra o aumento da passagem dos transportes públicos, o movimento "revolucionário" que era apartidário, que prezava pela igualdade de todos a partir dessa causa comum (os R$0,20), tornou-se alvo de novas formas de opressão: 
a tirania dos que tentam exilar as bandeiras partidárias; 
os movimentos políticos que insistem em organizar a manifestação com base em ideologias próprias e de oposição ao governo, desqualificando o povo / a massa / o Brasil que acordou; 
e a opressão também dos já identificados como autoritários que, por tradição, defendem os direitos apenas da elite e excluem os cidadãos que fazem parte do que chamo de povo, considerando-os os menos iguais.

Nesse meio tempo, assistimos vááááááárias formas de manipulação que funcionam tal qual os slogans repetitivos pelas ovelhas da história de Orwell. Isto é, discursos e mais discursos são mediados (sobretudo pela TV: Arnaldo Jabor + discurso do Pelé) e repetidos incansavelmente. Parte do povo, da classe trabalhadora e não escolarizada, não sabe o que está nas entrelinhas desses discursos... e continua vendendo cerveja no meio do evento, porque identifica aí mais uma oportunidade de tirar um dinheirinho para o seu sustento.
OPS! Ao invés de "evento", eu quis dizer manifestação contra o aumento da passagem... que... PERA LÁ, mas não já diminuiu??? Er... mas a massa vai à rua assim mesmo reivindicar... o que mesmo? Ah tá: #corrupção #sem-violência #vemprarua

E agora... Sacou? Então repete comigo: sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor...zzzzzzzzzzzz..
MÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ...
OBSERVAÇÃO: esse texto foi escrito em junho, após presentar minha roommate com um exemplar da obra, editado pela Cia das Letras. Ao converter o rascunho, decidi publicá-lo na data de hoje mesmo, pois no contexto atual do RJ 2013 eu acrescentaria também os eventos da JMJ (= mais uma lavagem cerebral, mais uma forma de tirania hipócrita)
Não aguento mais músicas religiosas repetidas inúmeras vezes como se fossem hino de torcida, ainda que na repetição os cantantes alterem o ritmo para o funk... Além do mais, a cidade está parada em função do evento, impedido a circulação das pessoas por diversas áreas. Praticamente obrigando os transeuntes a se depararem com o Papa. E tem mais: é feriado, mas a livreira aqui trabalha e precisa chegar na hora...  Se liga, minha gente!
IDE E FAZEI DISCÍPULOS ENTRE TODAS AS NAÇÕES
o Papa é BOPE!?

terça-feira, 16 de julho de 2013

Estou curiosa para ler esses livros :

Para cima e não para norte, Ed. Leya - porque depois de sair de Belém, tudo o que tem "norte" me chama atenção, rs, além do mais a história é sobre um homem plano que vive em duas dimensões!

Celular - 13 histórias à maneira antiga, Ed. CosacNaify - porque são contos, é um autor que eu desconheço e são histórias sobre pessoas tentando lidar com o cotidiano... puff.. além do mais estava em promoção no site e eu comprei! Dessa lista, provavelmente será o primeiro a ser lido, furando a fila.

Livro amarelo do Terminal, Ed. CosacNaify - apesar de ser um tema que não me chamaria atenção, a narrativa parece nonsense, a capa é bonita e o papel do livro lembra aquele usado nas páginas amarelas de lista telefônica.

Livro dos seres imaginários, Ed. Companhia das Letras - não lembro exatamente o que me inspirou a ler esse livro do Borges. Li alguns contos em pdf e Ficções recentemente.. e já planejo ler o Aleph. Ler Borges me deixa em crise literária. Então, volto a repetir... não sei porque coloquei esse livro na lista. Provavelmente tinha um motivo digno do esquecimento, por isso a necessidade de listá-lo. Mas, como descobri que minha "roommate" tem, então é outro livro que deve furar a fila também...

As cidades invisíveis, Ed. Companhia das Letras - então... ainda tô esperando ganhá-lo de presente de uma amigo meu: zzzzzzzzzz. Engraçado é que eu peguei ele na livraria, comecei a ler e larguei, porque tinha outras leituras pendentes... e agora fiquei nessa de esperar o bendito prometido, então ainda não li.

Trilogia Millenium, Ed. Companhia das Letras - Tá há muito tempo na lista por causa de uma indicação interessante em algum blog, maaaas... se eu não ganhar ou se eu não me deparar com esse livro aberto na minha frente, com certeza não vou ler. Trilogia... zzzzz... =/

Stella Manhatan, Ed. Rocco - tá escrito "procurar em sebo" e "'90"

Não aguento mais escrever em papeis avulsos e perder a listinha. Por que não tive antes essa ideia de publicar no blog? Esse espacinho está sendo cada dia mais útil e amado.
Risquei os que tenho disponíveis pra ler. Falta só chegar a encomenda da Cosac (confirmou meu pagamento hoje, eee!) e solicitar o empréstimo do outro. Os demais... alguém??

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Arte: livros-objetos e livros-imagem

Acho que é de conhecimento de todos que o mercado editorial está direcionado a divertir as crianças com livros-objetos... barulhentos, coloridos, permeáveis, desmontáveis... um monte de treco! sim, livros-trecos que depois de uma semana se entulham, quebram... e histórias pouco contam.

Mas eis que, por outro lado, os livros infantis tem maior pré-disposição a se tornarem objetos de arte. É inegável!  O mundo da literatura para crianças também comprova que nem tudo na vida, relacionado ao prazer, deve estar atrelado à diversão...

Imagens saltam das páginas em delicadas dobraduras de papel, com sofisticada "tecnologia" 3d. Saindo da linha livro-brinquedo, as dimensões em papel fazem parte do mundo da literatura infantil com ilustrações originais e extremamente belas, com imagens móveis surgidas literalmente das páginas de um livro.

É o exemplo da adaptação em quadrinhos em versão pop up de Moby Dick, publicada pela Publifolha. Sem questionar o valor literário da edição, podemos dizer que este livro é sim um objeto de arte.


Outros exemplos também encontramos em livros que nos permitem manipular a história, fazendo-nos intergir com as mãos, como nos livros de Janet e Allan Ahlberg, lançados pela Cia das Letrinhas, "O Carteiro Chegou" e "O Natal do Carteiro". Encontrei na internet um blog (veja aqui) com um relato bem legal sobre a experiência de leitura desse último livro. Tirei de lá essas imagens:

 

E não é apenas a experiência manual de leitura que identifica a verdadeira preocupação com a estética do livro-objeto. O design gráfico dos livros, o tipo de papel, a costura, tudo tende a ser mais elegante nas melhores edições de livros infantis... Casos em que a história é pouco interessante perto das ilustrações. Ilustrações que, se por um lado limitam o exercício da imaginação, por outro são um aprazível encanto visual de cores e traçados, verdadeiros "quadros" e pinturas de arte, dignos de serem emoldurados...

Minha última descoberta, quero dizer "a preferida", foi a ilustradora Suzy Lee (veja a trilogia sem palavras: "Onda", "Espelho", "Sombra" aqui)... uma sul-coreana cujos desenhos são fascinantes e constroem uma narrativa poética que nos permite experimentar o livro como imagem, puramente... num lirismo que (con)figura a simplicidade e a riqueza num jogo de cores e sentidos, num contraponto entre as páginas da esquerda e da direita e também entre nós leitores (leitores?) e a menina-personagem que nos encanta.
É apaixonante!

domingo, 11 de setembro de 2011

Resenha: Avalovara, de Osman Lins

Osman Lins é autor de várias obras importantes para a Literatura Brasileira. Dentre elas, o romance Avalovara (1973) se destaca pela engenharia literária elaborada sobre uma espiral e um quadrado, traçados com base no palíndromo sator arepo tenet opera rotas. Numa analogia referente a própria construção narrativa, qualquer que seja o percurso de leitura o sentido da obra é o mesmo.

    

A história diz respeito a Abel, um homem que quer se tornar escritor e ao longo de sua trajetória se envolve com três mulheres: Annelise Ross, Cecília e uma terceira, representada apenas por um símbolo. Numa reciprocidade, os personagens atravessam uma rede complexa de questionamentos sobre liberdade, amor, tempo, entre outros temas que surgem numa sempre referência às oito pequenas narrativas que formam o romance, narrativas que descrevem uma órbita de reflexões sobre o mundo, entre aquilo que é humano ou divino, físico ou metafísico, cujo centro é Abel.

O experimentalismo formal da estrutura narrativa dá passagem da representação do plano psicológico para a exploração da linguagem no fluxo da prosa literária, de modo que a organização do romance revela-se como um recurso de Osman Lins para estabelecer uma relação narratária entre espaço e tempo que vai além da mera representação do real, pois define-se como uma simbologia para os questionamentos existenciais e a busca de uma identidade ou de uma resposta para Abel.
Essa relação narratária, entretanto, demonstra uma trajetória que só traz mais dúvidas e desterro (linguístico, espacial, temporal e sentimental) ao protagonista, ao invés de uma possível auto-compreensão de suas relações e das relações humanas de maneira geral.


O trajeto de Abel que se inicia de Pernambuco à Europa, finda-se em São Paulo, onde ele encontra a plenitude e o êxtase do amor e da criação.

 Trecho de Avalovara, N2, pag. 354
Transitamos entre nós, vamos de mim a mim eu eu nós eu eu de mim a mim, laço e oito, boca e boca, transitamos e somos, a esfera circunscreve-nos e nós próprios uma esfera, boca e boca (de quem?) coxas braços joelhos bunda orelhas (de quem?) membro garganta bainhas rorantes o prazer formando-se os culhões acesos cabeleiras ais. Relâmpagos arabescos convulsos lento rolar dos trovões estrondos dos trovões carradas de pedrouços entornados sobre lastro de madeira uma explosão atira-os para o ar a sala treme cintilam cristais lustres vidros caixilhos moldura nuvens de chuva açoitadas edifícios pára-raios antenas de TV.
Descrição presente na parte posterior da 5ªed:
Poema? Romance? Ensaio ficcional? Fábula metalingüística? Publicada em 1973, a obra máxima do pernambucano Osman Lins continua a instigar novos leitores. Livro único, que desafia os gêneros, Avalovara é, antes de mais nada, um mergulho vertiginoso no cerne da linguagem: lá onde os nomes fecundam-se mutuamente à espera de realidades que ainda não nasceram. Com habilidade magistral, que modula cada frase, cada som, Osman Lins intercala oito temas narrativos que atravessam tempos e espaços distintos, saltando de Amsterdam a Recife, de Recife à Roma Antiga, daí a São Paulo e vice-versa, formando um esplêndido conjunto, no qual o próprio livro, em sua concepção, tratamento e estrutura, torna-se uma imagem de totalidade, uma cosmogonia.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Esse ofício do verso


Essa primeira citação abraça a resistência contra uma catalogação linear sobre o estudo e o entendimento da literatura. De certa forma, é de convir a opinião de Borges ao se referir a esse tipo de coragem: abandonar a história. A história, de certo modo, serve-nos como método guia e como recurso de identificador de um contexto especifico. Ora, o ensino de literatura em seu modelo tradicional escolar, é estritamente pautado na formação social e nacional. Ou seja, baseia-se num entendimento histórico das expressões literárias.

 “Ter consciência da história da literatura - ou de qualquer outra arte, nesse particular - é realmente uma forma de incredulidade, uma forma de ceticismo. Se digo comigo, por exemplo, que Wordsworth e Verlaine foram poetas muito bons do século XIX, talvez caia no perigo de pensar que o tempo de algum modo os destruiu, que não são tão bons agora como antes. Acho que a idéia antiga - que podemos conceder perfeição à arte sem levar em conta as datas - era muito corajosa.
[…] Os autores (ingleses, alemães, franceses, americanos etc.) sempre se admiram com o fato de que, na Índia, as pessoas não têm senso histórico - que tratam todos os pensadores como se fossem contemporâneos. Traduzem as palavras da filosofia antiga para o jargão moderno da filosofia atual. Mas isso simboliza algo corajoso. Simboliza a idéia de que se acredita na filosofia ou que se acredita na poesia - que as coisas outrora belas podem continuar sendo belas.”

Bom seria ler e interpretar cegamente. 

“As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar. O leitor, se for rápido o suficiente, pode ficar satisfeito com nossa mera alusão a algo.”

“Acho que um dos pecados da literatura moderna é ser muito autoconsciente”

A autoconsciência na literatura (não diria moderna, mas contemporânea) é recorrente. A poesia tornou-se arquitetura do poema, a ficção uma auto- em que narradores sapientes da construção narrativa confundem positivamente realidade e criação, verossimilhança e representação.

sábado, 16 de abril de 2011

Últimas

Quanto tempo se passou! Um mês? É.

Hoje não vou escrever sobre nada muito específico, quero somente atualizar o blog para que ele não fique às moscas e comentar também sobre algumas das minhas últimas leituras que, graças!, foram variadas, rápidas e proveitosas.

Li dois dos três volumes do Scott Pilgrim, após assistir ao filme (trailer). Normalmente indico essa prática em relação a adaptações literárias: primeiro assistir ao filme. Mas, nesse caso, não acho que vá fazer muita diferença. Na maioria dos casos há grandes reclamações na mudança da linguagem, ou no roteiro que cinematograficamente é “reduzido”. Eu, ao contrário, preferi a versão fílmica. Como disse o Mateus, o diretor conseguiu misturar Tv, Quadrinho, Videogame e Cinema. Sensacional!
O início é muito empolgante, mas do meio pro final fica um pouco cansativo. Concordo com a critica da Cinética, é chato assistir uma partida de videogame sem poder participar, rs. Mas na minha opinião isso nem compromete tanto assim...

Terminei o Raduan Nassar. Li "Um Copo de Cólera" e "Menina a Caminho". Fico na dúvida na hora de escolher minha obra preferida do autor, mas sei que não será "Menina a Caminho". Apesar de só ter publicado três livros, considero Raduan um prosador completo: escreveu romance, novela e conto. Todos sensacionais. Quero reler Lavoura Arcaica e fazer um contra-ponto com o filme, mas isso vai demorar um pouco...

Por enquanto estou na metade do “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” do Marçal Aquino - livro também adaptado para o cinema, pelo diretor Beto Brant. Fora isso, estou me empolgando com as programações gratuitas e a mostra de clássicos Lume Filmes do CCBB. Apesar das alterações sem aviso na programação, consegui ver Alice (youtube), do Chabrol e Anjo Embriagado, do Kurosawa.




Sylvia Kristel em Alice, de Claude Chabrol

Para quem não sabe, desde o dia 11 do 04 estou morando oficialmente e temporariamente no Rio, enquanto durar minha especialização na UFF (uff, passei! rs).

E por último e não menos importante: poesia! Li o "A teus pés" da Ana Cristina César (leia um poema aqui) e o "Trans" , do poeta paraense Age de Carvalho (meu preferido!) - livro que ganhei de presente dos meus tios João Jorge e Diana. 

É minha gente, esse é um texto que escrevo orgulhosa, meio abestalhada e cheia de gabação... mas é que a caboquinha saiu de Belémzinha e chegou na cidade grande com ganância de ler, ver e saber o mundo.

Abraços.


O QUE não quer
dizer nada –

o que
por si
só
já seria
o em-si do assunto

enquanto lavas
teu prato
e vês sentido
nisso.

Age de Carvalho